Se o meu sucessor vem de fora da GNT será um retrocesso

Rafael Matesanz. EFE/Fernando Matesanz

Segunda-feira 28.11.2016

Terça-feira 23.08.2016

Quarta-feira 06.07.2016

Sexta-feira 01.04.2016

Em uma entrevista com a Efe, na qual faz um balanço desses anos, não hesita em destacar a Ana Pastor e Trinidad Jiménez como as melhores titulares de Saúde, como também não esconde que sua pior experiência foi com Bernat Soria, com o que viveu “um verdadeiro mobbing durante um par de anos”.

Apesar das conquistas que fizeram a Portugal para a cabeça em doações de órgãos e transplantes, Matesanz adverte: “Há que estar inovando continuamente” e acrescenta que um dos desafios que terá que enfrentar seu sucessor será conseguir que, com o mesmo número de doadores tenha mais órgãos úteis.

Sobreviveu às 14 ministros, 15 se incluímos a Fátima nos últimos. Qual foi o segredo?

Não tem sido fácil. O único segredo é manter uma rigorosa linha profissional e não se posicionar em nenhum momento com nenhum partido.

Houve momentos de muita tensão, mas a grande maioria (de ministros) entendeu que uma das razões por que a GNT tem funcionado é a continuidade; não há mais que ver outro tipo de programas onde se mudou continuamente de responsáveis.

Se estamos agora a crescer a este ritmo é por decisões que tomamos, há oito anos. Isto não se improvisava.

Quais são ministros apoiaram mais a GNT?

Os melhores foram Ana Pastor e Trinidad Jiménez e os que menos, são conhecidos, e também não vale a pena relembrá-los. O melhor favor que se pode fazer é não se lembrar deles.

Você pensou em abandonar a GNT alguma vez?

Houve momentos em que sim. O mais delicado foi a etapa de Bernat Soria, um verdadeiro moobing durante um par de anos.

A mesma taxa de substituição, que se deduz de dividir 28 anos de idade, entre 14 ministros dá uma idéia do que simplesmente aguentando muitas coisas se resolvem.

Qual é a fórmula do sucesso da GNT?

Havia uma esplêndida matéria-prima que simplesmente tínhamos que organizar. A partir daí tudo foi ir melhorando, todas as coisas se tornaram mais fáceis quando começaram a melhorar e até o dia de hoje.

Nem sequer teria pensado naqueles anos que íamos conseguir nem remotamente o que foi alcançado, foi a obra de minha vida e, pessoalmente, eu me sinto muito orgulhoso.

Você colocou a crise em risco o sistema de transplantes?

Sem dúvida. Estávamos conscientes de que, em países de nosso entorno mais atingidos pela crise, o sistema veio para baixo, como em Portugal. Em Portugal, era previsível porque tínhamos menos camas, menos profissionais e com menos salário. O sistema sofreu um teste de estresse muito importante e minha principal preocupação foi que se pudesse sobreviver sem que o sistema se resintiera.

No início de 2010, houve um mínimo de doação e de transplante e é possível que a crise tivesse algo que ver, mas podemos dizer que o sistema saiu não somente ileso, mas reforçado. Põe de manifesto uma boa saúde do sistema e uma colaboração mais do que digna dos profissionais, que têm sabido defender o que consideram seu.

Como você vê a época pós-Matesanz e quais são os desafios de seu sucessor?

O sistema é muito sólido e não depende de uma única pessoa. A GNT tem gente muito preparada, que estão no melhor momento de sua vida profissional. É uma das razões para sair. É o momento de máximo em tudo e é o momento de dizer adeus.

Meu sucessor tem que estar inovando continuamente. Temos que conseguir que a rentabilidade do processo seja maior, algo que estamos aprendendo. Tem que treinar melhor o pessoal, melhorar a técnica cirúrgica utilizada na extração, chegar cada vez mais órgãos eficazes para transplantar a mais pessoas.

O grande desafio é melhorar a rentabilidade do doador, conseguir que os órgãos que hoje não usamos mais, se possam transplantar. Órgãos que nos anos 90 afastamos, hoje teríamos colocado sem duvidar. A tecnologia está nos ajudando a avaliá-los melhor.

É esta maior eficiência, o que permitiu reduzir as listas de espera para aceder a um transplante?

Um dos grandes conquistas é que a lista de espera em 2016 seja mais baixa do que em 1990, quando se faziam menos indicações de transplantes e que se mantenha estável: 5.500 pessoas esperam por um órgão.

A lista de espera é um conceito muito optimista, introduz-se a pessoas que realmente se sabe que a sua sobrevivência vai ser razoável e não vai fazer passar por um calvário.

Agora, se você estivesse aplicando os critérios dos anos 90 para entrar na lista de espera, não ultrapassaria os 1.500 a 2.000 pessoas. Não teríamos doente para transplante. Agora não há limite de idade para acessar, só prima o conceito clínico.

Será que deu nome à nova ministra de possíveis sucessores?

Dei-lhe sobre tudo perfis. Para mim teria que ser alguém de dentro da GNT.

A generosidade dos espanhóis não é maior do que a de outros países, mas estamos muito melhor organizados e a pessoa que me substitua, tem que saber tudo isso, se não mal iríamos.

Inventamos tudo isso já há muitos anos, evidentemente que viesse de fora da GNT seria um retrocesso, isso sim que há que ter muito em conta. Se o revelei, assim, a ministra entendeu perfeitamente.

O que lhe parece que Dolors Montserrat não for o caso, na área da saúde?

Se me fazem esta pergunta, há 30 anos, digo que sim, mas a essas alturas e depois da experiência digo que não. Eu mudei de opinião. Não é uma condição ‘sine qua non’. Tem que ser eficaz, inteligente e entender o setor e, é claro, cercar-se de um bom time.

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